Mulheres no marketing digital: por que vale a pena investir

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O marketing digital nasceu praticamente junto com a internet e está presente no nosso cotidiano há anos, mas ainda é um setor em constante e ampla expansão, que possui um dinamismo bem próprio do nosso tempo. Uma característica dessa área, no entanto, parece não acompanhar a inovação e a modernidade que ela propõe: a sua força de trabalho segue esmagadoramente masculina. Afinal, por que vale a pena ter mulheres no marketing digital?

As mulheres representam 30% dos profissionais do setor, ocupando apenas 6.5% das posições de liderança, segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Marketing Digital.

Mulher mostrando informações no laptop; mulheres em marketing digital
@Freepik

Esses dados nada mais são do que um reflexo da nossa sociedade. A mesma que paga em média 20% a menos a profissionais do sexo feminino em comparação com os do sexo masculino, de acordo com relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado em março de 2019, e que pouco oferece cargos de chefia a elas.

Nota-se especialmente uma penetração mais tímida de mulheres em carreiras ligadas às ciências exatas. Como o marketing digital tem um pé (há quem diga que são os dois) nesse campo de conhecimento e possui conexão direta com a tecnologia, o distanciamento das mulheres do setor persiste.

Mulheres em tecnologia

Se a presença de mulheres no marketing digital deixa a desejar, o que dizer sobre mulheres na tecnologia? A edição de 2018 da Web Summit, uma das maiores conferências de inovação e tecnologia do mundo, realizada todos os anos em Lisboa, deu visibilidade a uma realidade problemática que causou debates e até um pouco de vergonha. Em uma foto do palco do evento divulgado pela organização, que reuniu alguns dos líderes da comunidade de startups portuguesas e alguns governantes locais, nenhuma única mulher pode ser vista

A imprensa mundial repercutiu o caso e a conferência chegou a ser apelidada de “Men Summit”. Jornais portugueses informaram que, apesar de não ser possível ver mulheres na foto, elas estavam lá e eram pelo menos quatro, além de circularem cada vez em maior número pelos estandes e palestras do evento (eu e a Lilian, da helloNira, e eu estava lá). Obviamente, esses dados, embora relevantes, não tornam a desigualdade de gênero no setor menos grave.

Certamente, o lado positivo disso tudo foi ter os holofotes voltados a essa questão, gerando debates e mostrando serem necessários programas que levem à igualdade de gênero no setor.

Sejamos justos em reconhecer que uma série de esforços já tem sido feito para incentivo à entrada de mulheres na área de tecnologia, seja pela organização da própria Web Summit, com o programa Women in Tech e descontos nos bilhetes para mulheres, ou por outras instituições. Contudo, fica claro que o “buraco é mais embaixo”.

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Raiz do problema

Sinal de homem e mulher
@Freepix

Nunca é demais lembrar que a presença de mulheres e homens em determinadas áreas nada tem a ver com alguma característica genética que as faz menos capazes ou menos interessadas por certos assuntos do que eles.

Também vale citar um ponto um tanto quanto polêmico que permeia esta questão: masculino e feminino são construções sociais, não biológicas, baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, segundo estudos realizados por teóricos de gênero e identidade da mais alta patente, como Joan Scott, Judith Butler e Stuart Hall. Então, de forma generalizante, nos tornamos o que fomos criados para ser.

O fato é que as meninas são incentivadas a serem mães e donas de casa dedicadas, sendo que desde pequenas são presenteadas com panelinhas, bonecas e maquiagens, enquanto eles ficam com os videogames, Legos, carrinhos e bolas. Assim, têm as suas preferências, habilidades motoras e raciocício estimulados de formas distintas.

Com o passar dos anos, as meninas e os meninos são levados a acreditar que altos cargos e determinadas posições de trabalho são designados aos homens.

O documentário ‘Miss Representation’ (2011) fornece dados importantes sobre isso ao abordar a maneira como a mídia inferioriza a mulher e a pressiona a buscar padrões de beleza irreais.

Utilizando-se de uma pesquisa feita com crianças norte-americanas, a produção exemplifica a forma como as nossas preferências são moldadas na infância e adolescência. Segundo os dados, um número igual de meninos e meninas com sete anos quer ser presidente quando crescer – aproximadamente 30% dos entrevistados. No entanto, o interesse das meninas cai consideravelmente por volta dos quinze anos.

A liderança é vista como anseio masculino, enquanto as mulheres são desencorajadas a buscar posições ambiciosas. No documentário, a ativista norte-americana pelos direitos das crianças Marian Wright Edelman explica esse declínio observado na adolescência com a afirmação: “Você não pode ser o que você não pode ver." O poder da representatividade.

'Miss Representation' está disponível no catálogo da Netflix e pode ser encontrado em outras plataformas online. ????

O que o marketing digital ganha com as mulheres?

A importância das mulheres no marketing digital é uma via de mão dupla: se, por um lado, são grandes consumidoras digitais, por outro, enquanto profissionais, trazem ao negócio uma visão rigorosa de quem usufrui dele.

Essa lógica é ainda mais evidente quando se trata de produtos e serviços para mulheres, famílias e crianças, mas também é válida para vendas de uma forma geral. Ao mesmo tempo em que são consumidoras exigentes – entram em contato com as empresas, tiram dúvidas, solicitam trocas e reparos, reclamam de serviços mal prestados e produtos de qualidade inferior ao anunciado –, as mulheres possuem uma visão semelhante do mercado enquanto profissionais e trabalham para um mais elevado padrão de qualidade.

Outro ponto a favor é a flexibilidade que o modelo de trabalho do marketing digital oferece. É possível, por exemplo, trabalhar de qualquer lugar e em horários variados. Isso favorece a conciliação da carreira com a realização do papel tradicional da mulher na sociedade, que é cuidar da casa e da família.

Por fim – mas não menos importante –, as mulheres já têm se qualificado para atuar no setor. Estão presentes em grande número em faculdades e cursos livres sobre o tema.

Então, podemos concluir que faltam apenas oportunidades de colocar as mãos na massa, com salários e oportunidades equivalentes aos oferecidos aos homens.

Para que essa inclusão ocorra de forma eficiente, as meninas devem ser estimuladas desde a infância a fazer as atividades que lhes apeteçam – sem essa de “isso é coisa de menino” – e conscientizadas de que são capazes de obter sucesso no que escolherem.

Uma mudança de percepção do papel da mulher pelo mercado de trabalho, e especificamente pelo segmento de marketing digital, resultaria em transformações no setor a mais curto prazo. Além de qualificadas, elas sabem como ninguém como explorar e otimizar um mercado que já integram de forma consistente.

Eu sou seu chefe!
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Produtora de conteúdo

Jornalista e Mestre em Cultura e Comunicação, especializada em representação feminina na mídia. Nascida em São Paulo, é membro do sobrecarregado fluxo migratório Brasil » Irlanda » Portugal. Fluente no dialeto desse movimento, que mistura sua língua nativa com o português de Portugal e o inglês, defende a combinação de pão de queijo, vinho alentejano e irish apple pie no menu de qualquer evento.

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